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sexta-feira, maio 21

Inversão

_ Olá - Ele disse.
_ Oi - Ela disse. 
Mas na verdade disseram quase ao mesmo tempo num misto de desespero, emoção e quem sabe medo daquele encontro. 
Ele nem imaginava que a veria assim, tão de repente e ela, imprudente, como sempre, se esqueceu que aquele era o caminho dele, só se lembrou num ponto que não tinha mais como correr, ele já havia apontado na esquina.
Ela não sabia o que fazer, tinha vontade de correr, mas a vontade na verdade era de pará-lo bem ali, sem se importar se ele estava ou não com pressa e tirar a limpo toda aquela história que a fez perder o sono da última semana, e pensando bem, talvez fosse do último mês. As coisas não deveriam ser assim, não eram para ser assim, ela não havia pensado desse jeito e não queria um ponto final, queria apenas trocar o sentido daquelas reticências que ele havia colocado naquilo. Disse oi e acelerou o passo, talvez não fosse a hora.
Ele não queria tê-la visto, seria tão melhor se ela não tivesse aparecido,  não que tivesse raiva, na verdade nem chegava perto disso, mas ela sumindo era simplesmente mais fácil de não lembrar, ou lembrar menos. Porque ela era perfeita para ele, ela era ele, como ele, para ele, mas não conseguia ser dele. E apesar de tudo ela ainda queria que ficasse tudo bem. Disse olá na esperança que ela parasse. Não parou. 
Ela saiu pensando em como a vida poderia ser assim, porque a final de contas o destino resolvera fazê-la passar por tudo o que já passou? mas dessa vez, os papéis estavam invertidos. Talvez fosse pra lhe mostrar o quanto são difíceis os dois lados da moeda.
Ele saiu com o coração sangrando na boca e a cabeça voando por ai onde não sabia.  Não olharia para trás.
Foram. 

segunda-feira, fevereiro 1

É claro que ela não acreditava

É claro que ela não acreditava em amor a primeira vista, afinal, essas bobagens só acontecem em filmes, novelas ou coisas do tipo e além do mais, já não estava mais na idade dessas coisas.
Mas com aquele homem era diferente, era como se ele todo fosse um imã feito especialmente para ela. Tudo nele exercia uma atração daquelas que se chama de atração fatal.
Era mais que isso, mais que atração, ela negaria, mas os olhos daquele homem que ela nem sabia como se chamava fizeram com que ela o amasse ali, naquele instante.
Ela não sabia como ele era, se tinha algum defeito ou se tinha alguma qualidade, não sabia telefone ou endereço, a única coisa que sabia era que ele tinha uma conta bancária na mesma agência que ela, apenas isso.
Ela não acreditava em amor a primeira vista, mas na noite que seguiu a tarde em que se encontraram ela mal conseguiu dormir lembrando daqueles olhos.
É claro que ela não acreditava em destino, afinal, somos nós mesmos que fazemos o nosso caminho, e já havia esperado de mais por algum sinal, esperou tanto pelo destino que mesmo que ele fizesse caretas em sua frente não perceberia. Foi por isso que construiu a sua sorte e chegou onde chegou.
Mas um tempo depois, na mesma agência de banco, ele estava lá de novo, na sua frente esperando para falar com o gerente.
Ela ficou chocada, não podia ser verdade. Era. 
Ele viroude para ela e disse:
_ Oi, meu nome é Paulo.
Ela estremeceu, como assim aquela "coisa" estava fando com ela?
_ Oi, sou Lígia.
_ Acho que já nos vimos por aqui.
É lógico que já tinham se visto, ela se lembrava muito bem!
_ É, pode ser, eu estou sempre por aqui.
Pensou "E agora?"
_ Seria muito inconveniente pedir o seu telefone?
Ela não sabia como reagir, quer dizer que ele também a achava interessante?
_ Tudo bem, vou pegar meu cartão.
Ainda bem que na semana passada a empresa para que trabalhava lhe forneceu alguns desses cartões de contato, nunca acharia a caneta.
_ Por favor. Disse ele.
Ela lhe deu o catão, sorriu embasbacadamente e inventou que o horário de almoço estava acabando, se ficasse mais cinco minutos ali começaria a dar respostas incoerentes, não dava mais para esperar o gerente poder atender.
Se despediram casualmente e ela foi embora.
No mesmo dia a noite, ele ligou. 

quarta-feira, dezembro 9

Um fim de tarde.

O dia amanheceu nublado. O sol parcialmente escondido entre as nuvens.
Escovei os dentes, lavei o rosto. Vesti o uniforme do colégio, peguei no guarda-roupa uma calsa jeans qualquer, coloquei os meus velhos tênis All Star.
Sentei-me na mesa, tomei o café da manhã e fui para a aula.
Eu não esperava nada daquele dia. Seria só mais um na minha monótona rotina.
Eu estava enganada. Este seria um grande dia.
Enquanto percorria a longa tragetória entre a minha casa e a escola ia ouvindo "Wish you were here" Pink Floyd. Voltei a música várias e várias vezes até entrar na sala.
Assisti ás aulas mais entediada do que de costume, na verdade eu acho que dormi na aula de filosofia. O tédio é como um veneno para mim, vai percorrendo lentamente pelo meu corpo, lentamente de mais.
Sai da escola, fui para casa, almoçei, sentei na sala e começei a não assistir a TV. Estranho, mais eu nunca assisto televisão, eu simplesmente uso a tela colorida para não ter que justificar ás pessoas que estão por perto porque eu estou olhando pro nada. Eu acho que passei umas duas horas não assistindo TV.
Minha mãe me despertou dos meus devaneios, eu sinto que ela nunca percebe que eu não estou realmente no aqui e no agora, mais é melhor assim, dar explicações sobre o meu comportamente adolescente é algo que eu não gosto de fazer. Sorridente como sempre ela me pediu que fosse fazer umas coisas no centro para ela. Eu fui. No caminho e continuei a ouvir a mesma música. Decidi que ela seria a música do dia.
Andando devagar e olhando para o chão simplesmente para não ter que perceber que estou cruzando com algum conhecido, se ele me chamar eu também não vou escutar porque os fones de ouvido estão no último volume. E depois eu simplesmente posso dizer que estava muito distraida. Anti-social? eu acho que sou sim. Tem dia que a disposição das pessoas a serem gentis me irrita. Profundamente.
Fui ao supermercado, á farmácia, entrei na livraria para verificar se havia algun livro novo e interessante, e para terminar resolvi entrar na padaria e confeitaria para comprar algo gostoso, naquela hora já estava com fome.
Foi quando eu sai do meu estado de alienação quanto mundo exterior e resolvi prestar atenção no tempo. Começou a trovejar bastante, entrei na padaria e a chuva começou a cair furiosamente.
Pedi um pedaço de bolo, me sentei para comer. Foi quando ele entrou, provavelmente para se abrigar da chuva.
Quem era ele?
No momento eu ainda não sabia, mais nos próximos meses ele seria a pessoa que ocuparia o primeiro e último pensamento do meu dia. Seria ele que nos próximos meses estaria presente nos meus devaneios enquanto eu não assistia TV. Seria ele que me faria sentir mais feliz do que últimamente.
Mais naquela tarde nublada quando ele entrou naquele lugar, conseguiu desviar a minha atenção e me fazer concentrar nele. Ele era alto, tinha os cabelos castanho claro, olhos verdes e grandes. Ele por um momento olhou para mim. Eu desviei o olhar e voltei para o meu bolo. Duas semana depois ele me diria que me achou gulosa, aquele pedaço de bolo parescia muito grande para mim. Eu ri.



Republicação.
Publicado pela primeira vez em 05/11 por mim mesma no Blog Às vezes