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terça-feira, abril 20

Redecorando

Sairam para as ruas, foram redecorar a vida que já estava um pouco amarelada. Então colocaram as fitas nos cabelos e sairam a cantar e tocar as flautas e flautins e dançavam também os neo-paisagistas. 
Mas aqueles que olhavam tudo por detrás dos vidros dos escritórios condevam aquela loucura, aquele "barulho" atrapalhava e todos tinham muito o que fazer. Proque todos têm sempre muito o que fazer, estão sempre ocupados de mais com em levar a vida, em sustentar a vida, em crescer na vida e se esquecem de viver a vida.

segunda-feira, março 8

E caminhava pela rua, e observava a própria sombra.
Sentia uma sensação estranha, não sabia explicar mais havia algo diferente. Viveria uma nova fase talvez. Era assim que acontecia, as novas condições lhe traziam sensações estranhas, logo se acostumaria.
O que era dessa vez? O que a menina sentia? 
Queria voar, e sentia que podia. Bastava se sentar em um canto com silêncio, vento no rosto, caneta e papel. Voaria.
Seria capaz então de descrever todos os lugares do mundo desde que tivesse papel e caneta, e claro, vento no rosto, mesmo que nunca tivesse conhecido o tal lugar, saberia, porque estava sobrevoando o mundo e atravéz de uma fina membrana poderia então tocar a vida. Saberia os seus limites; enquanto escrevesse saberia os seus finos e delicados limites. Se esforçando, quem sabe, chegaria em seu próprio limite, entre a sanidade e a loucura, o ápice de uma simetria perfeita entre verbos e rimas, teria nesse ponto tocado o tempo. Um pé cá, outro lá, entre a razão e o algo a mais que só quem já pode perdê-la sabe dizer.  
Então descobrira a sua nova condição, a menina agora era poeta.
Viu na própria sombra uma figura mística, rara e diferente. Que tinha os olhos cantantes, a fala doce, um coração que sangra, uma alma que chora e um todo que sente, mais do que tudo e em primeiro lugar sente, e sente com infinita delicadesa e ardência, porque toca a vida, por uma fina e resistente membrana que se chama amor. 

    

quarta-feira, janeiro 20

Ela deixou os chinelos na areia,

saiu correndo em direção ao mar. Não quis entrar, ficou apenas com os pés na água, parou pra olhar o horizonte.
Era uma mulher estressada, tinha toneladas de responsabilidades sobre suas costas, não dava a atenção que queria aos filhos, seu casamento há muito não era mais como ela sempre sonhou, mas naquele momento, só naquele momento, sentia-se mais feliz que nunca, a sensação de liberdade tomava conta de tudo, até sua respiração se dava livre, e o seu pensamento naquele momento era simplesmente uma cor. Ela pensava em azul, e o azul que estava na mente se juntou com o azul do mar que também já se juntara com o azul do céu. E ela ficou ali, por apenas alguns minutos, minutos esses tão intensos quanto uma eternidade.
Era tudo o que precisava para continuar, precisava apenas daqueles minutos para resolver tudo o que tinha que resolver, apenas daqueles minutos para mesmo com a cabeça estourando de dor, organizar um jogo na sala com os filhos e rir muito com eles, só aqueles minutos para ser mais tolerante com o marido e entender que o peso que ele carregava não era menor que o dela e ter esperanças para continuar a ama-lo.
Então ela suspirou leve, deu as costas para o tão azul, pegou seus chinelos e saiu caminhando. Entrou no carro, retomou conciência e foi pra casa se aprontar para mais uma reunião massante do trabalho.

segunda-feira, janeiro 11

Uma chance

Ela sabia que não podia machuca-lo, não tinha esse direito, mas sabia também que era totalmente capaz de fazê-lo.
Se sentia a pior das criaturas por essa constatação, mas pelo menos consigo mesma deveria ser verdadeira, tinha que assumir que desde o começo, desde o momento em que aceitou o pedido de namoro daquele, que antes de qualquer coisa, era seu melhor amigo, sabia que era capaz de abandona-lo a qualquer momento se aquele, que acreditava ser quem realmente amava, lhe desse uma chance. 
Era feio, era cruel, ela ia perder sua amizade mais sólida, mas era capaz de arriscar, tinha que arriscar, porque havia esperado muito por aquele homem, não podia deixa-lo escapar agora que ele havia batido em sua porta. 
Mas vinha o sentimento de culpa, o nojo de si mesma, porque o seu melhor amigo a amava de uma forma tão absoluta que doia de ver o brilho nos olhos dele quando estavam juntos. Ela não queria perde-lo, mas sabia que isso iria acontecer, pois depois que eles terminassem sem a explicação que ela deveria dar, era inevitável que ele descobrisse qual tinha sido o motivo, eles tinham o mesmo circulo de amizades e mais cedo ou mais tarde ele descobriria que foi usado, descobriria que aquela em que depositou o seu amor mais sincero havia o usado para satisfazer as suas carências nojentas e não morrer de amor por outro. 
Ela iria sofrer também, talvez mais do que ele, mas não tinha outro jeito, tinha que se dar aquela chance, precisava daquilo, tinha que tentar ser feliz.

sábado, dezembro 26

A Estrela [Parte 4]

Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos.
Sentia-se muito mal, seus pais eram tudo o que ela tinha de concreto na vida, e ela os tinha perdido.
Depois de tudo acertado, ela não sabia o que fazer, se voltava para a Europa ou se ficava no Brasil, voltava para sua antiga casa e retomava sua carreira aqui.
Decidiu ficar, mas não retomou a carreira.
A estrela estava triste de mais para poder brilhar, ela simplesmente não conseguia.
Louise entregou-se ao álcool, passava dias e dias bêbada. Hilda e Marcelo ficavam preocupados, ofereciam ajuda, mas Louise não queria ajuda, estava mal e estava feliz com isso, achava-se merecedora de seu sofrimento, além do mais o álcool era a única coisa que podia fazer com que os pensamentos corrosivos das brigas com os pais saissem um pouco de sua cabeça.
Hilda tantava lhe convencer de que nada daquilo tinha importância, e que ela fez o que fez porque precisava alcançar o que sempre quisera para a vida e que seus pais é que não tinham a mente aberta como elas tinham e que aquelas brigas eram normais, nada de mais. Mas tudo foi inútil, Louise se sentia casa vez mais mal, sua alegria e otimismo persistentes de outrora transformaram-se em pura angustia.  
Alguns meses se passaram e Louise teve uma pneumunia, não fez o tratamento que devia e seu quadro se agravou.
Em Julho de 1950 o brilho da estrela se apagou para sempre.

sexta-feira, dezembro 25

A Estrela [Parte 3]

Com sua pouca idade e seu novo comportamento, Louise começou a ter problemas com os pais. Vera sentia-se orgulhosa, mas acreditava que não era correto que uma moça daquela idade andasse por bares com um moço, sozinha, sentia-se chateada. O pai por mais paciente e compreensivo que fosse, abominava as novas atitudes da filha, sentia-se envergonhado perante os amigos que diziam "eu te avisei sobre essas artistas", e ele e Louise tinham interminaveis discussões quando ela regressava de suas noitadas.
Louise ficava sufocada dentro de sua própria casa, não podia receber os novos amigos, não podia beber em casa, ou fumar, e sempre recebia intermináveis sermões dos pais quando chegava em casa.
Apesar da boemia a que Louise se entregou, sua carreira continuou deslanchando, e outros papeis importantes chegaram.
Certo dia, enquanto ela e Marcelo tomavam suas bebidas de sempre sentados no bar de sempre, chegou uma conhecida de Marcelo que viera de Paris, Hilda Katerine era o seu nome.
Hilda era cerca de dois anos mais velha que Louise, mas sem dúvida era uma mulher a frente de seu tempo, usava calças e um batom vermelho cortante fosse noite ou dia.
Elas tornaram-se amigas, Louise admirava o caráter de Hilda, e logo adotou também as calças.
Foi um escândalo na família, a situação ficou insustentável. 
As noites de Louise eram sempre uma aventura, espetáculos, e o trio pelos bares da cidade. 
Em feveriero de 1941 Louise e seus dois inseparáveis amigos conheceram o Lança Perfume, era carnaval. Marcelo e Louise apenas se divertiram com ele, para Hilda o Lança Perfume tornou-se companheiro.
Os dois amigos ficavam preocupados com Hilda, mas ela sempre estava muito bem.
Em março de 1942 durante um dos coqueteis de fim de estréia de peça, Louise conheceu José Augusto com quem casou-se oito meses depois. 
Foi uma paixão arrebatadora para ambos, e apesar de José Augusto não gostar muito dos amigos de Louise, e deles também não se sentiram muito a vontade com o rapaz, tudo foi muito bem, e Hilda e Marcelo foram seus padrinhos. Para os pais de Louise um alívio. Para ela própria também, não havia outro jeito de sair de casa. 
Quatro meses depois Marcelo e Hilda casaram-se também, provavelmente descobriram com a ausência da companheira que essa de casamento poderia dar certo com eles. 
Mas o casamento de Louise não deu certo por muito tempo, em janeiro de 1944 ela decidiu se separar de José Augusto, não se sentia feliz, mais uma vez estava sufocada, ela era livre, jovem, bonita e rica, não precisava daquilo. Mais uma decepção para os pais, mas dessa vez a estrela foi brilhar em um canto que era só seu. 
Louise decorou sua casa cuidadosamente, organizou cada detalhe, deu uma festa de inauguração em seu novo apartamento. 
A partir dai Louise decidiu que conheceria o mundo sozinha quando não estivesse em turnê. Ela queria conhecer toda a Europa.
Como tudo havia sido desde o começo, querer para Louise era poder, e ela fez todas as viagens que queria, teve muitos amores, um em cada viagem, ou mais que um, mas foi em Florença que conheceu o maior deles, o amor de sua vida, Alonzo. 
Alonzo Bergamo era um diretor de teatro, se conheceram atravéz de contatos que Louize fizera durante suas viagens. Sem dúvida foi a maior paixão da vida de Louise, não se casaram como ele gostaria porque Louise passou a acreditar que os casamentos acabavam com o amor, mas viveram juntos em Florença e foram muito felizes enquanto foi possível. 
Sendo Alonzo diretor, Louise fez várias peças na itália. Ela brilhava como nunca em palcos Italianos.
Em 1949 Louise recebeu a triste notícia de que seus pais haviam falescido em um acidente de automóvel. Transtornada regressou sozinha para o Brasil, despediu-se de Alonzo com a promessa de que estaria de volta assim que pudesse, o que não foi possível. 
Louise não chegou no Brasil a tempo de velar o corpo de seus pais. Depois teve que tomar conta de todos os papeis e como filha única herdara tudo o que fora dos pais para si. É claro que ela não precisava daquilo, já era rica o suficiente, queria seus pais de volta, agora. Foi o único desejo de Louise que não pode se realizar. 
Enquanto cuidava dos trâmites legais com ajuda de Marcelo e Hilda, sentia remorso por ter causado tanto desgosto aos pais. 
Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos. 


[Continua]

quinta-feira, dezembro 24

A Estrela [Parte 2]

Aos 14 anos, Louise fez um teste para uma companhia de teatro e em 1933 estreou sua primeira peça chamada "A Rosa".
No dia da estréia, Louise estava muito nervosa. Enquanto se preparava na coxia sentia cada célula de seu corpo tremer, o estômago revirou, mas ela sabia que poderia fazer aquilo, ela tinha ensaiado cada fala, sabia de cada gesto que teria que fazer, tudo milimétricamente gravado em sua memória, então ela decidiu que iria brilhar, seria a primeira vez que a estrela Louise brilharia, e dali para frente seu brilho nunca mais iria se apagar, ela seria uma estrela eterna. 
Quando Louise decidia uma coisa, estava decidido e pronto. 
Ela foi perfeita no papel de Tereza que era filha de Josefa, uma mulher determinada e sensível, que sofria com a brutalidade do marido que escolhera para si. Louise juntamente com todo o elenco de "A Rosa" foi aplaudida de pé, a peça foi um sucesso e ficou em cartaz por alguns meses.
Nos anos seguintes Louise foi parando com o balett, entrou de cabeça nos ensaios, fez parte de outras peças, e foi crescendo em sua carreira.
Até que aos 19 anos chegou o seu grande momento, o momento que qualquer atriz espera que chegue, a sua primeira protagonista.
A peça chamava-se "Menina Fêmea Mulher" de um roteirista brasileiro, Louise vivera Nadir, uma menina que tinha então 20 anos e passava pelas mudanças de menina para mulher. Foi uma peça polêmica na época, porém de grande repercussão, e que consagrou Louise como uma estrela.
Ela tinha conseguido, tinha chegado lá, sentia-se absoluta. Seus pais estavam também muito orgulhosos, principalmente a mãe, que via na filha seu sonho realizado. 
No coquetel servido depois da peça com os atores, diretores, críticos e outras figuras importantes no cenário artístico da época, Louise conheceu Marcelo Augusto Mendes, um jovem de 22 anos que adorava arte e estava acompanhando um dos críticos presentes. 
Entre risos gerais aqui e ali, eles começaram a conversar. Houve uma identificação mútua e começara naquela noite uma amizade concreta, que mudaria a vida de Louise radicalmente.
Dali para frente eles começaram a se ver de vez enquando, não era um namoro, visto que não havia empatia física entre eles. Marcelo apresentou seus amigos e amigas para Louise que na época não tinha muitos que ela pudesse chamar de amigos, dedicara toda a sua existência em aperfeiçoar-se, logo não tinha muito tempo para isso.
Com seu novo amigo, começou a frequentar os lugares mais movimentados do Rio de Janeiro, como começou a ir a praia, logo ficou mais corada e deixou aquele aspecto doente que sua pele tinha, ficou mais bonita, e com o tempo a boa menina que apesar de geniosa era muito domesticada foi ganhando uma ousadia que não vinha do berço, passou então a atrair a atenção de vários rapazes. Era uma jovem, bonita e famosa atriz, que tornou-se logo uma das moças mais cobiçadas das altas rodas da sociedade carioca. Louise Ferraz, a estrela.
O novo caráter de Louise fez com que ela conhecesse coisas que não estavam dentro dos tantos livros que devorara e nem dentro da sua sólida criação. Louise e Marcelo tornaram-se uma dupla inseparável, a mídia noticiava um namoro que não era real, eles não se incomodavam e passaram a perder as noites que vinham depois dos espetáculos de Louise em bares. Louise bebia sempre Whisky com duas pedras de gelo, o garçon já sabia, e Marcelo bebia sempre sua Bloody Mary, um coquetel raro que poucos lugares fazem e poucas pessoas apreciam.
Com sua pouca e idade e seu novo comportamento, Louise começou a ter problemas com os pais. 


[Continua]

terça-feira, dezembro 22

A Estrela [Parte 1]

Louise queria ser uma estrela.
Quando nasceu em 1918, sua mãe já queria que fosse uma estrela.
Ela cresceu acreditando que nascera para brilhar nos grandes palcos do mundo, Louise queria ser atriz, aos quatro anos preparara sua primeira peça que foi apresentada e aplaudida na ceia de Natal da família.
Louise era uma criança linda, tinha a pele muito branca e as bochechas rosadas, o cabelo levemente ondulado e castanho claro, os olhos verdes e movimentos delicados, quase dançados. Tinha um olhar que deixava imune qualquer um, mas por traz de sua candura tinha um gênio forte, era birrenta e voluntariosa. Queria tudo aqui e agora. Sabia muito bem dissimular, era uma atriz nata.
O pai de início era contra devido a forma como as artistas eram vistas e posteriormente pela dura opressão política da época em que a ditadura militar sufocante tentava silenciar as artes, mas deixou-se levar pelo sonho de sua esposa, sonho esse que na verdade era mais como uma projeção do seu próprio sonho vetado, e sendo o pai Marcos Ferraz, engenheiro conceituado, de boníssima alma, acabou permitindo que a filha seguisse a carreira artística e mesmo sendo chamado de louco pelos companheiros do clube, ele sentia até orgulho dos inegáveis talentos que a filha mostrara desde criança.
Sobre a mãe podemos dizer que sempre fora uma sonhadora, não alcançou todos os seus objetivos, pelo menos não o principal deles, a sua vida de estrela, mas casou-se com um homem que ela mesma achava ideal para si, teve uma filha linda e talentosa e ostentava a posição social que sempre desejou. Era ainda uma boa mãe e administrava bem o seu lar, era amada como mulher e respeitada em seu meio. Vera Lúcia Souza Ferraz era uma mulher feliz.
Aos quatro anos Loise começou a dançar ballet, ela era perfeita como fazia questão de ser em tudo o que fazia, fossem coisas sérias ou alguma travessura de moleca como a vez em que colou os cabelos de sua baba enquanto esta dormia só porque não admitia que lhe chamassem a atenção, exeto o pai, que tinha de Louise o maior respeito e admiração.
Se apresentou muitas vezes quando criança, era uma menina que carregava em cada movimento graça, sentia-se única enquanto dançava, mas ainda não era o que queria, ela queria os teatros e bem pequena já sabia disso.   
Aos 14 anos Louise fez um teste para uma companhia de teatro e em 1933 estreou sua primeira peça chamada "A rosa". 
No dia da estréia, Louise estava muito nervosa. 

[Continua]