Emanuel José era seu nome, era esse também o nome do avô. Quando olhava para o espelho sentia vergonha, sabia que não era culpado, mas ainda assim sentia vergonha, mas hoje, hoje foi diferente.
Quando olhou no espelho, se lembrou do vô mané, que sentado em sua cadeira de fios com o cigarro de palha em mãos dizia calmo que as coisas ruins da vida eram como aquele cigarro, queimavam por algum tempo no coração da gente, mas depois viravam cinzas e eram varridas pelo vento. "Que o vento, meu filho, quando passa pelas coisas tem o poder de desescrevê-las levando-as embora, como faz com as folhas no outono" disse o vô mané na sua velha cadeira de fios.
Era como se o avô soubesse de tudo, do maior e único segredo de Emanuel, aquele que não contara para ninguém jamais, mas que até então vivia dentro dele com as janelas bem fechadas onde queimava insistentemente e não deixava, de forma alguma, o vento entrar. Mas hoje era diferente, usaria de toda a sua força para finalmente abrir as janelas.
Abriu a janela e decidiu que aquilo tudo pararia naquele instante de queimar; foi então que entrou o vento. E o vento desescreveu aquelas dores e medos do coração, calmo como a fala do avô, simples como caem as folhas adas árvores no outono.
Não sofreria mais por aquilo que não procurou, pois para ele, que apesar de tudo conservara uma alma de menino, só merecia castigo quem havia feito alguém sofrer, ele não o fizera.
Não deixaria mais, nunca mais, que o que aquele estranho fizera com o menino Emanuel no celeiro da fazenda de seus pais naquela noite estranha enquanto brincava de conversar com os pôneis que ganhara do avô deixasse o homem Emanuel José com vergonha de viver, logo ele que apesar de tudo tinha um coração tão cheio de inocências.
sexta-feira, abril 23
"Que o vento, meu filho, quando passa pelas coisas tem o poder de desescrevê-las levando-as embora, como faz com as folhas no outono"
Por Bárbara Grou. Contado às 22:12 8 Espantos
Sobre: Recortes de Vida
quarta-feira, fevereiro 10
E-mails para Natasha
Por Bárbara Grou. Contado às 20:58 4 Espantos
Sobre: Despedidas, Recortes de Vida
sábado, janeiro 30
Estava tudo muito desgastado ali. A tinta das paredes já havia descascado, haviam teias de aranha pelos cantos e o café muito amargo.
Algo tinha perdido o sentido, a busca tinha terminado, tudo entre eles ficou finalmente perfeito e foi vivido até a última gota. Era hora de mudar, voltar a buscar. Era hora de encher o cantil.
Ambos eram muito sensíveis, mas ela foi a primeira a perceber. Foi então alerta-lo, sabia que ele teria que aceitar, mais cedo ou mais tarde, era uma decisão para dois, nada de metades.
Pôs-se inteira no olhar mais verdadeiro, e foi contar-lhe as novas, dizer-lhe que estavam cumpridos.
No início ele discordou, mas analizou os fatos e acabou por concordar que estavam no final, as flores no jardim estavam mesmo murchando.
Despediram-se então, e é claro, não foi fácil, estas coisas pedem algumas lágrimas, mas sabiam que prorrogações seriam tentativas préviamente frustradas de tentar manter as mãos dadas enquanto a estrada pela qual caminhavam juntos bifurcava-se espontâneamente.
Desentrelaçaram-se as mãos. Seguiram sós novamente.
Por Bárbara Grou. Contado às 16:27 6 Espantos
Sobre: Amor, Recortes de Vida
sexta-feira, janeiro 22
Enquanto olhava a paisagem morta da grande cidade Tereza chorava, era domingo e estava vazia e sozinha em seu apartamento.
Não tinha nada a fazer, não tinha companhia, não tinha, tudo lhe faltava.
Só tinha uma coisa a se agarrar; a saudade.
Então era isso que Tereza fazia nos dias em que não tinha trabalho nenhum, agarrava-se com a saudade de um amor que a deixou, na saudade da família que sutilmente se afastou e a saudade dos amigos, que com tanta ausência de esqueceram dela.
Tinha se descuidado, sabia disso, buscou tão intensamente o poder e o controle que sempre quis, que esqueceu-se que nada daquilo faria sentido se não tivesse com quem compartilhar.
Ela conseguiu, conseguiu tudo o que queria, mas agora estava morrendo junto com a paisagem da grande cidade, morrendo como as flores que ganhou no último dia dos namorados que tinha alguém com quem compartilhar, as flores morreram por falta de água, o dia dos namorados a muito tempo secou.
Chegou exatamente onde sonhou chegar, mas esquecia alguns aniversários ás vezes e mandava a secretária dizer que estava em reunião. Tantas e tantas reuniões em mesas compridas e retângulares cheias de pessoas sérias que nada lembravam as reuniões de Natal na casa dos pais, cheias de alegria e aconchego, mas agora eram só os rostos sérios e os Natais, bem, as companhias aéreas esgotam muito cedo as passagens nesta época.
E para ficar onde estava, sempre levava trabalho para casa, não saia mais com aqueles que a conheciam tão bem e gostavam dela apesar de tudo, nunca mais as luzes da cidade e os bares de final de semana, trabalho... Trabalho.
Então no domingo Tereza acordou, encostou-se na janela do apartamento e chorou por algum tempo.
Tomou um banho, colocou uma roupa qualquer e decidiu ir respirar um pouco de ar, ainda que sujo, da cidade. Caminhou por algumas ruas distraidamente reparando no movimento das pessoas e esqueceu, como era de costume esquecer, de reparar no movimento dos carros, ao atravessar a rua, naquele domingo vazio, a esquecida tereza não fez muita questão de agarrar-se a vida como agarrou-se naquela manhã à saudade. Entregou-se.
Por Bárbara Grou. Contado às 22:22 7 Espantos
Sobre: Drama, Recortes de Vida
quarta-feira, janeiro 20
Ela deixou os chinelos na areia,
Por Bárbara Grou. Contado às 21:52 6 Espantos
Sobre: Recortes de Vida, Vida


