BLOGGER TEMPLATES AND TWITTER BACKGROUNDS »
Mostrando postagens com marcador Recortes de Vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Recortes de Vida. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, abril 23

"Que o vento, meu filho, quando passa pelas coisas tem o poder de desescrevê-las levando-as embora, como faz com as folhas no outono"

Emanuel José era seu nome, era esse também o nome do avô. Quando olhava para o espelho sentia vergonha, sabia que não era culpado, mas ainda assim sentia vergonha, mas hoje, hoje foi diferente.
Quando olhou no espelho, se lembrou do mané, que sentado em sua cadeira de fios com o cigarro de palha em mãos dizia calmo que as coisas ruins da vida eram como aquele cigarro, queimavam por algum tempo no coração da gente, mas depois viravam cinzas e eram varridas pelo vento. "Que o vento, meu filho, quando passa pelas coisas tem o poder de desescrevê-las levando-as embora, como faz com as folhas no outono" disse o mané na sua velha cadeira de fios. 
Era como se o avô soubesse de tudo, do maior e único segredo de Emanuel, aquele que não contara para ninguém jamais, mas que até então vivia dentro dele com  as janelas bem fechadas onde queimava insistentemente e não deixava, de forma alguma, o vento entrar.  Mas hoje era diferente, usaria de toda a sua força para finalmente abrir as janelas. 
Abriu a janela e decidiu que aquilo tudo pararia naquele instante de queimar; foi então que entrou o vento. E o vento desescreveu aquelas dores e medos do coração, calmo como a fala do avô, simples como caem as folhas adas árvores no outono. 
Não sofreria mais por aquilo que não procurou, pois para ele, que apesar de tudo conservara uma alma de menino, só merecia castigo quem havia feito alguém sofrer, ele não o fizera. 
Não deixaria mais, nunca mais, que o que aquele estranho fizera com o menino Emanuel no celeiro da fazenda de seus pais naquela noite estranha enquanto brincava de conversar com os pôneis que ganhara do avô deixasse o homem Emanuel José com vergonha de viver, logo ele que apesar de tudo tinha um coração tão cheio de inocências. 

quarta-feira, fevereiro 10

E-mails para Natasha

De Luiza para Natasha

23 de março de 2009 

"Oi Natii! 
Como você tá amiga? Espero que bem viu!
E as coisas por ai, como são?
To muito curiosa para saber como foi o seu primeiro dia de aula na escola nova! Deve ser o máximo conhecer gente nova né?
Haa e deixa eu te contar! O Rafael me falou que ficou super triste de você ter se mudado! Adorou né? Quando você vier para cá... HUUUUUM'
HAHAHAHAHA'
Haa e tem eu né! Morrendo de saudades de você, de todas as nossas brincadeiras, de todos os incontáveis momentos que a gente passou juntas em todos estes anos de amizade!
Foi fantástico te conhecer e ser sua amiga!
Te amooooooooooo!
E não esquece de mim hein! Beijoooooo!"

De Gabi para Natasha

23 de março de 2009

"Oi Nati!
Como está tudo? Chegou bem ai?
Talvez agora nem tenham instalado a sua internet ainda, mas não to conseguindo te ligar, deve ser porque mudando de estado muda de área tembém né?
Enfim, estou te escrevendo pra te dizer algumas coisas importantes que talvez nem conseguiria dizer por telefone, assim como não consegui te dizer pessoalmente.
Sabe, desejo que a sua nova vida seja maravilhosa, e que mesmo batendo aquela saudade que eu sei que bate, que você saiba que amigos a gente faz em qualquer lugar, especialmente você, com esse jeito único de ser, rapidinho vai estar cheia de novos amigos. Te desejo toda a sorte do mundo! 
E você sabe o que é toda a sorte do mundo? 
Toda a sorte do mundo é você encontrar alguém que seja como você foi para mim quando eu cheguei aqui! Alguém que te faça sorrir e que às vezes de faça até esquecer que você deixou um monte de gente que amava para traz, longe.. em outra cidade!
Quero te agradecer por tudo! Por tem sido minha amiga, por ter me ouvido quando eu precisei, por ter chorado junto comigo muitas vezes e por tantos momentos eternos que a gente viveu! 
Agora estamos nos separando, mas eu tenho certeza que isso não vai fazer a nossa amizade morrer, não mesmo, no meu coração você vai estar sempre perto!
Lembra aquela vez que você foi atropelada e eu senti lá em casa que você tava mal? Então, vai continuar sendo assim, para sempre! 
Eu te amo Nati! Manda notícias! (Haa eu sei que vai mandar né?)
Beijos!"

sábado, janeiro 30

Estava tudo muito desgastado ali. A tinta das paredes já havia descascado, haviam teias de aranha pelos cantos e o café muito amargo.
Algo tinha perdido o sentido, a busca tinha terminado, tudo entre eles ficou finalmente perfeito e foi vivido até a última gota. Era hora de mudar, voltar a buscar. Era hora de encher o cantil.
Ambos eram muito sensíveis, mas ela foi a primeira a perceber. Foi então alerta-lo, sabia que ele teria que aceitar, mais cedo ou mais tarde, era uma decisão para dois, nada de metades. 
Pôs-se inteira no olhar mais verdadeiro, e foi contar-lhe as novas, dizer-lhe que estavam cumpridos.
No início ele discordou, mas analizou os fatos e acabou por concordar que estavam no final, as flores no jardim estavam mesmo murchando.
Despediram-se então, e é claro, não foi fácil, estas coisas pedem algumas lágrimas, mas sabiam que prorrogações seriam tentativas préviamente frustradas de tentar manter as mãos dadas enquanto a estrada pela qual caminhavam juntos bifurcava-se espontâneamente.
Desentrelaçaram-se as mãos. Seguiram sós novamente. 

sexta-feira, janeiro 22

Enquanto olhava a paisagem morta da grande cidade Tereza chorava, era domingo e estava vazia e sozinha em seu apartamento.
Não tinha nada a fazer, não tinha companhia, não tinha, tudo lhe faltava.
Só tinha uma coisa a se agarrar; a saudade. 
Então era isso que Tereza fazia nos dias em que não tinha trabalho nenhum, agarrava-se com a saudade de um amor que a deixou, na saudade da família que sutilmente se afastou e a saudade dos amigos, que com tanta ausência de esqueceram dela. 
Tinha se descuidado, sabia disso, buscou tão intensamente o poder e o controle que sempre quis, que esqueceu-se que nada daquilo faria sentido se não tivesse com quem compartilhar. 
Ela conseguiu, conseguiu tudo o que queria, mas agora estava morrendo junto com a paisagem da grande cidade, morrendo como as flores que ganhou no último dia dos namorados que tinha alguém com quem compartilhar, as flores morreram por falta de água, o dia dos namorados a muito tempo secou. 
Chegou exatamente onde sonhou chegar, mas esquecia alguns aniversários ás vezes e mandava a secretária dizer que estava em reunião. Tantas e tantas reuniões em mesas compridas e retângulares cheias de pessoas sérias que nada lembravam as reuniões de Natal na casa dos pais, cheias de alegria e aconchego, mas agora eram só os rostos sérios e os Natais, bem, as companhias aéreas esgotam muito cedo as passagens nesta época. 
E para ficar onde estava, sempre levava trabalho para casa, não saia mais com aqueles que a conheciam tão bem e gostavam dela apesar de tudo, nunca mais as luzes da cidade e os bares de final de semana, trabalho... Trabalho. 
Então no domingo Tereza acordou, encostou-se na janela do apartamento e chorou por algum tempo.
Tomou um banho, colocou uma roupa qualquer e decidiu ir respirar um pouco de ar, ainda que sujo, da cidade. Caminhou por algumas ruas distraidamente reparando no movimento das pessoas e esqueceu, como era de costume esquecer, de reparar no movimento dos carros, ao atravessar a rua, naquele domingo vazio, a esquecida tereza não fez muita questão de agarrar-se a vida como agarrou-se naquela manhã à saudade. Entregou-se.

quarta-feira, janeiro 20

Ela deixou os chinelos na areia,

saiu correndo em direção ao mar. Não quis entrar, ficou apenas com os pés na água, parou pra olhar o horizonte.
Era uma mulher estressada, tinha toneladas de responsabilidades sobre suas costas, não dava a atenção que queria aos filhos, seu casamento há muito não era mais como ela sempre sonhou, mas naquele momento, só naquele momento, sentia-se mais feliz que nunca, a sensação de liberdade tomava conta de tudo, até sua respiração se dava livre, e o seu pensamento naquele momento era simplesmente uma cor. Ela pensava em azul, e o azul que estava na mente se juntou com o azul do mar que também já se juntara com o azul do céu. E ela ficou ali, por apenas alguns minutos, minutos esses tão intensos quanto uma eternidade.
Era tudo o que precisava para continuar, precisava apenas daqueles minutos para resolver tudo o que tinha que resolver, apenas daqueles minutos para mesmo com a cabeça estourando de dor, organizar um jogo na sala com os filhos e rir muito com eles, só aqueles minutos para ser mais tolerante com o marido e entender que o peso que ele carregava não era menor que o dela e ter esperanças para continuar a ama-lo.
Então ela suspirou leve, deu as costas para o tão azul, pegou seus chinelos e saiu caminhando. Entrou no carro, retomou conciência e foi pra casa se aprontar para mais uma reunião massante do trabalho.