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segunda-feira, março 8

E caminhava pela rua, e observava a própria sombra.
Sentia uma sensação estranha, não sabia explicar mais havia algo diferente. Viveria uma nova fase talvez. Era assim que acontecia, as novas condições lhe traziam sensações estranhas, logo se acostumaria.
O que era dessa vez? O que a menina sentia? 
Queria voar, e sentia que podia. Bastava se sentar em um canto com silêncio, vento no rosto, caneta e papel. Voaria.
Seria capaz então de descrever todos os lugares do mundo desde que tivesse papel e caneta, e claro, vento no rosto, mesmo que nunca tivesse conhecido o tal lugar, saberia, porque estava sobrevoando o mundo e atravéz de uma fina membrana poderia então tocar a vida. Saberia os seus limites; enquanto escrevesse saberia os seus finos e delicados limites. Se esforçando, quem sabe, chegaria em seu próprio limite, entre a sanidade e a loucura, o ápice de uma simetria perfeita entre verbos e rimas, teria nesse ponto tocado o tempo. Um pé cá, outro lá, entre a razão e o algo a mais que só quem já pode perdê-la sabe dizer.  
Então descobrira a sua nova condição, a menina agora era poeta.
Viu na própria sombra uma figura mística, rara e diferente. Que tinha os olhos cantantes, a fala doce, um coração que sangra, uma alma que chora e um todo que sente, mais do que tudo e em primeiro lugar sente, e sente com infinita delicadesa e ardência, porque toca a vida, por uma fina e resistente membrana que se chama amor. 

    

quinta-feira, fevereiro 25

Guardou os bons momentos, todos o que se lembrava desde que era capaz de lembrar, colocou-os em uma caixinha, depositou cuidadosamente na primeira gaveta do criado mudo. Ficaria tudo ali, colecionaria momentos bons.
Estava decidido, não seria médica, professora ou advogada, seria colecionadora de felicidades, buscaria pelo mundo momentos bons e os eternizaria, por menores que fossem as felicidadezinhas, não tinha importância se fossem da espessura de alfinetes ou da proporção de explosões nucleares, sentir o coração bater mais forte valeria tudo.
Não estava fugindo da realidade, estava apenas exigindo menos, exigiria menos de si, menos da vida e do resto do mundo e das coisas do mundo. Exigir menos faria do pouco o suficiente, o acaso traria o muito às vezes e seria bom também, guardaria tudo.
Ela só queria ser diferente, correr atraz do prêmio que todos correm era muito chato. Seu prêmio seria diferente, só queria encher uma caixa, a caixa da segunda gaveta do criado mudo de momentos bons, de pessoas boas, de abraços e sorrisos. 
Não se importaria mais com as expectativas, queria só felicidade pra caixinha. Depois de cheia, abriria a caixinha e espalharia os momentos por ai, daria sorrisos aos rostos tristes e depois de acabadas as lembranças felizes guardadas começaria tudo de novo, e de novo e de novo. A colecionadora de felicidades vagaria sempre pelo mundo até que fosse necesário um sucessor. E os colecionadores vagarão eternamente pelo mundo. Existirão sempre caixinhas pequenas e agitadas nas segundas gavetas dos criados mudos.  

sexta-feira, janeiro 15

Fofoca encantada

Estes dias fiquei sabendo que algumas princesas andaram se reunindo para tomar um chá e fofocar os babados dos seus reinos e eu não fui convidada!  
A reuniãozinha foi na casa da Cinderela, aquela mesma do sapatinho de cristal, mas sabe o que eu fiquei sabendo? anda meia indisposta, não consegue andar muito. Dizem que é por que o seu marido, um dos Príncipes Encantados que ninguém sabe o nome é meio que tarado pelo famoso sapatinho de cristal, mas os pés dela cresceram e como ele sempre pede para que ela coloque o tal sapato os pés dela estão cheios de feridas, a coitada fica mesmo sentada, evita andar muito. 
A Branca de neve estava no chá, disseram que ela cresceu muito, para os lados é claro. Está enorme de gorda, também, com essa mania de sair comendo tudo quanto é maçã que vê pela frente! 
Bela Adormecida estava lá também, não que ela seja uma convidada relevante, porque bem, ela tem essa de dormir de repente, inclusive dizem que é por causa desse probleminha que o Principe Encantado dela pediu o divórcio, uma pena. 
A Bela da Fera também foi convidada, dizem que ela foi a mais sortuda, a Fera era mesmo uma coisa que sinceramente "Hôô lá em casa", ela é que tá um pouco acabadinha né, sabe como é, o tempo passa, as primeiras rugas aparecem, as primeiras plásticas também. Pena que nem todos os cirurgiões são lá aquelas coisas, e acabaram por deixar a boca dela meia torta e a somprancelha erguida de mais. Ela fica o tempo todo com cara de quem tá perguntando "Hãn?".
Até a doida da Jasmim e a Ariel que tem aquele monte de escamas foram chamadas acreditam?
Pelo que eu soube, a Jasmim passou por maus pedaços anos passado. Pegou o galinha do Aladim com outra na cama deles! Deu uns tapas na vagabunda e dizem que até hoje ele dorme no sofá.
Já a Pequena Sereia tá na mesma, pequena. Acho que o nome do problema dela é nanismo, não cresceu grandes coisas.
Agora o que mais me irrita é o fato de que como assim ninguém me chamou? Só porque a minha fama não anda lá essas coisas por eu estar dando umas voltinhas na garupa de uns lobos por ai? Mas e dai? São todos meus amigos e eu não estou traindo o movimento, as pessoas mudam! (E dá para perceber só de olhar para elas!)
De qualquer forma, eu também não ligo muito, pelo menos o meu final feliz está bem mais feliz do que o delas! Beijos e me telefonem gatinhos!

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sábado, janeiro 9

Menina senhora

Colocava as contas no colar como se cada uma delas fosse uma felicidade da vida. Sentada na poltrona que fora do avô confeccionava um colar todo de felicidades.
A primeira conta era infância e sorrisos gratuitos. A segunda conta era o primeiro amor, inocência e beijo desajeitado. A terceira era juventude, abraço no mundo, olhos que enxergam horizontes. E assim por diante...
A menina que é senhora de alma sabia de tudo, entendia de mais do que se tratava a vida, e confeccionou o colar de felicidades para dar de presente a um desconhecido qualquer, o diria que aquele colar era um amuleto, ele poderia usar como máscara de camaleão e se misturar a paisagem quando a dor e a tristesa passasem perto.
A menina senhora sabia da felicidade e sabia das tristesas, e mesmo sem muitas vezes tê-las sentido na pele, conhecia tudo a fundo, a menina senhora tinha um dom de sensibilidade.
Queria que todos pudessem sentir as energias do mundo também, queria que todos pudessem ver o quanto tudo tinha cores e formatos tão variados, queria emprestar o seu caleidoscópio que tinha espelhinhos de emoção dentro, mas não era possível.
Então todas as tardes a menina senhora sentava-se na velha poltrona reclinável que fora de seu avô e fazia seus colares de contas encantadas, e enquanto os confeccionava repetia sempre a mesma frase - "Sim, eu acredito".