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sexta-feira, janeiro 22

Enquanto olhava a paisagem morta da grande cidade Tereza chorava, era domingo e estava vazia e sozinha em seu apartamento.
Não tinha nada a fazer, não tinha companhia, não tinha, tudo lhe faltava.
Só tinha uma coisa a se agarrar; a saudade. 
Então era isso que Tereza fazia nos dias em que não tinha trabalho nenhum, agarrava-se com a saudade de um amor que a deixou, na saudade da família que sutilmente se afastou e a saudade dos amigos, que com tanta ausência de esqueceram dela. 
Tinha se descuidado, sabia disso, buscou tão intensamente o poder e o controle que sempre quis, que esqueceu-se que nada daquilo faria sentido se não tivesse com quem compartilhar. 
Ela conseguiu, conseguiu tudo o que queria, mas agora estava morrendo junto com a paisagem da grande cidade, morrendo como as flores que ganhou no último dia dos namorados que tinha alguém com quem compartilhar, as flores morreram por falta de água, o dia dos namorados a muito tempo secou. 
Chegou exatamente onde sonhou chegar, mas esquecia alguns aniversários ás vezes e mandava a secretária dizer que estava em reunião. Tantas e tantas reuniões em mesas compridas e retângulares cheias de pessoas sérias que nada lembravam as reuniões de Natal na casa dos pais, cheias de alegria e aconchego, mas agora eram só os rostos sérios e os Natais, bem, as companhias aéreas esgotam muito cedo as passagens nesta época. 
E para ficar onde estava, sempre levava trabalho para casa, não saia mais com aqueles que a conheciam tão bem e gostavam dela apesar de tudo, nunca mais as luzes da cidade e os bares de final de semana, trabalho... Trabalho. 
Então no domingo Tereza acordou, encostou-se na janela do apartamento e chorou por algum tempo.
Tomou um banho, colocou uma roupa qualquer e decidiu ir respirar um pouco de ar, ainda que sujo, da cidade. Caminhou por algumas ruas distraidamente reparando no movimento das pessoas e esqueceu, como era de costume esquecer, de reparar no movimento dos carros, ao atravessar a rua, naquele domingo vazio, a esquecida tereza não fez muita questão de agarrar-se a vida como agarrou-se naquela manhã à saudade. Entregou-se.

quarta-feira, janeiro 20

Ela deixou os chinelos na areia,

saiu correndo em direção ao mar. Não quis entrar, ficou apenas com os pés na água, parou pra olhar o horizonte.
Era uma mulher estressada, tinha toneladas de responsabilidades sobre suas costas, não dava a atenção que queria aos filhos, seu casamento há muito não era mais como ela sempre sonhou, mas naquele momento, só naquele momento, sentia-se mais feliz que nunca, a sensação de liberdade tomava conta de tudo, até sua respiração se dava livre, e o seu pensamento naquele momento era simplesmente uma cor. Ela pensava em azul, e o azul que estava na mente se juntou com o azul do mar que também já se juntara com o azul do céu. E ela ficou ali, por apenas alguns minutos, minutos esses tão intensos quanto uma eternidade.
Era tudo o que precisava para continuar, precisava apenas daqueles minutos para resolver tudo o que tinha que resolver, apenas daqueles minutos para mesmo com a cabeça estourando de dor, organizar um jogo na sala com os filhos e rir muito com eles, só aqueles minutos para ser mais tolerante com o marido e entender que o peso que ele carregava não era menor que o dela e ter esperanças para continuar a ama-lo.
Então ela suspirou leve, deu as costas para o tão azul, pegou seus chinelos e saiu caminhando. Entrou no carro, retomou conciência e foi pra casa se aprontar para mais uma reunião massante do trabalho.

domingo, janeiro 17

Fim

- Oi.
- Oi amor, não esperava por você agora, entra.
  Como foi o dia?
- Foi bom. Na verdade não muito, tenho pensado um pouco em umas coisas.
- Quer dividir?
- Na verdade eu preciso.
- Então me diga.
- Sabe, é tão difícil, dói tanto ter que dizer assim, eu me sinto mal, de verdade.
- O que aconteceu?
- Eu te trai.
- (...)
- Por favor, não chora assim.
- O que você acha que eu deveria fazer Fernando?
- Me bate, briga comigo, só não chora assim na minha frente, eu não mereço.
- Quando?
- Começou a um mês mais ou menos.
- Começou?
- É por isso que eu não mereço que você chore, eu não te trai Marília, eu estou te traindo, eu pensei muito, e eu acho que me apaixonei por ela, me pegou de surpresa e eu não sei como explicar. 
- Porque não me disse antes, porque me fez de boba este tempo todo?
- Eu estava confuso.
- Haaa você estava confuso? Eu achava que você não era tão egoísta assim! 
- Para de chorar.
- Me deixa! 
- Desculpe.
- Então é isso? Tudo isso de uma vez e você me pede desculpas? 
- Eu vou sair da sua vida, não se preocupe.
- Você não sabe o quanto isso dói, você não tem idéia do quanto eu te amo, da forma como eu apostei cada pensamento que eu tinha em você!
- Eu também te amo.
- Cala a boca! Isso é ridículo, não me ama! VOCÊ NÃO ME AMA! 
- Eu sei que não podia.
- Me abraça.
- Me perdoa minha flor. 
- E se eu disser que sim?
- Eu não sei.
- Você a ama?
- Não sei.
- Porque eu não consigo te mandar embora? Porque dói tanto te dizer o que eu deveria dizer?
- Eu vou embora.
- Quem é ela?
- Trabalha comigo.
- Como você pode?
- Eu não sei explicar, eu me sinto mal por você, mas não sei o que fazer.
- Tchau.
- Quer mesmo que eu vá?
- Não, mas você não tem o direito de me perguntar.
- Eu sei, me desculpe, não vou mais te procurar.
- Sai daqui e me deixe chorar sozinha, vai embora e eu quero que você se sinta muito mal por isso, quero que você saiba que está me fazendo sofrer. Logo eu que fiz tudo por você.
- Desculpe; tchau.

sexta-feira, janeiro 15

Fofoca encantada

Estes dias fiquei sabendo que algumas princesas andaram se reunindo para tomar um chá e fofocar os babados dos seus reinos e eu não fui convidada!  
A reuniãozinha foi na casa da Cinderela, aquela mesma do sapatinho de cristal, mas sabe o que eu fiquei sabendo? anda meia indisposta, não consegue andar muito. Dizem que é por que o seu marido, um dos Príncipes Encantados que ninguém sabe o nome é meio que tarado pelo famoso sapatinho de cristal, mas os pés dela cresceram e como ele sempre pede para que ela coloque o tal sapato os pés dela estão cheios de feridas, a coitada fica mesmo sentada, evita andar muito. 
A Branca de neve estava no chá, disseram que ela cresceu muito, para os lados é claro. Está enorme de gorda, também, com essa mania de sair comendo tudo quanto é maçã que vê pela frente! 
Bela Adormecida estava lá também, não que ela seja uma convidada relevante, porque bem, ela tem essa de dormir de repente, inclusive dizem que é por causa desse probleminha que o Principe Encantado dela pediu o divórcio, uma pena. 
A Bela da Fera também foi convidada, dizem que ela foi a mais sortuda, a Fera era mesmo uma coisa que sinceramente "Hôô lá em casa", ela é que tá um pouco acabadinha né, sabe como é, o tempo passa, as primeiras rugas aparecem, as primeiras plásticas também. Pena que nem todos os cirurgiões são lá aquelas coisas, e acabaram por deixar a boca dela meia torta e a somprancelha erguida de mais. Ela fica o tempo todo com cara de quem tá perguntando "Hãn?".
Até a doida da Jasmim e a Ariel que tem aquele monte de escamas foram chamadas acreditam?
Pelo que eu soube, a Jasmim passou por maus pedaços anos passado. Pegou o galinha do Aladim com outra na cama deles! Deu uns tapas na vagabunda e dizem que até hoje ele dorme no sofá.
Já a Pequena Sereia tá na mesma, pequena. Acho que o nome do problema dela é nanismo, não cresceu grandes coisas.
Agora o que mais me irrita é o fato de que como assim ninguém me chamou? Só porque a minha fama não anda lá essas coisas por eu estar dando umas voltinhas na garupa de uns lobos por ai? Mas e dai? São todos meus amigos e eu não estou traindo o movimento, as pessoas mudam! (E dá para perceber só de olhar para elas!)
De qualquer forma, eu também não ligo muito, pelo menos o meu final feliz está bem mais feliz do que o delas! Beijos e me telefonem gatinhos!

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segunda-feira, janeiro 11

Uma chance

Ela sabia que não podia machuca-lo, não tinha esse direito, mas sabia também que era totalmente capaz de fazê-lo.
Se sentia a pior das criaturas por essa constatação, mas pelo menos consigo mesma deveria ser verdadeira, tinha que assumir que desde o começo, desde o momento em que aceitou o pedido de namoro daquele, que antes de qualquer coisa, era seu melhor amigo, sabia que era capaz de abandona-lo a qualquer momento se aquele, que acreditava ser quem realmente amava, lhe desse uma chance. 
Era feio, era cruel, ela ia perder sua amizade mais sólida, mas era capaz de arriscar, tinha que arriscar, porque havia esperado muito por aquele homem, não podia deixa-lo escapar agora que ele havia batido em sua porta. 
Mas vinha o sentimento de culpa, o nojo de si mesma, porque o seu melhor amigo a amava de uma forma tão absoluta que doia de ver o brilho nos olhos dele quando estavam juntos. Ela não queria perde-lo, mas sabia que isso iria acontecer, pois depois que eles terminassem sem a explicação que ela deveria dar, era inevitável que ele descobrisse qual tinha sido o motivo, eles tinham o mesmo circulo de amizades e mais cedo ou mais tarde ele descobriria que foi usado, descobriria que aquela em que depositou o seu amor mais sincero havia o usado para satisfazer as suas carências nojentas e não morrer de amor por outro. 
Ela iria sofrer também, talvez mais do que ele, mas não tinha outro jeito, tinha que se dar aquela chance, precisava daquilo, tinha que tentar ser feliz.

sábado, janeiro 9

Menina senhora

Colocava as contas no colar como se cada uma delas fosse uma felicidade da vida. Sentada na poltrona que fora do avô confeccionava um colar todo de felicidades.
A primeira conta era infância e sorrisos gratuitos. A segunda conta era o primeiro amor, inocência e beijo desajeitado. A terceira era juventude, abraço no mundo, olhos que enxergam horizontes. E assim por diante...
A menina que é senhora de alma sabia de tudo, entendia de mais do que se tratava a vida, e confeccionou o colar de felicidades para dar de presente a um desconhecido qualquer, o diria que aquele colar era um amuleto, ele poderia usar como máscara de camaleão e se misturar a paisagem quando a dor e a tristesa passasem perto.
A menina senhora sabia da felicidade e sabia das tristesas, e mesmo sem muitas vezes tê-las sentido na pele, conhecia tudo a fundo, a menina senhora tinha um dom de sensibilidade.
Queria que todos pudessem sentir as energias do mundo também, queria que todos pudessem ver o quanto tudo tinha cores e formatos tão variados, queria emprestar o seu caleidoscópio que tinha espelhinhos de emoção dentro, mas não era possível.
Então todas as tardes a menina senhora sentava-se na velha poltrona reclinável que fora de seu avô e fazia seus colares de contas encantadas, e enquanto os confeccionava repetia sempre a mesma frase - "Sim, eu acredito".

sábado, dezembro 26

A Estrela [Parte 4]

Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos.
Sentia-se muito mal, seus pais eram tudo o que ela tinha de concreto na vida, e ela os tinha perdido.
Depois de tudo acertado, ela não sabia o que fazer, se voltava para a Europa ou se ficava no Brasil, voltava para sua antiga casa e retomava sua carreira aqui.
Decidiu ficar, mas não retomou a carreira.
A estrela estava triste de mais para poder brilhar, ela simplesmente não conseguia.
Louise entregou-se ao álcool, passava dias e dias bêbada. Hilda e Marcelo ficavam preocupados, ofereciam ajuda, mas Louise não queria ajuda, estava mal e estava feliz com isso, achava-se merecedora de seu sofrimento, além do mais o álcool era a única coisa que podia fazer com que os pensamentos corrosivos das brigas com os pais saissem um pouco de sua cabeça.
Hilda tantava lhe convencer de que nada daquilo tinha importância, e que ela fez o que fez porque precisava alcançar o que sempre quisera para a vida e que seus pais é que não tinham a mente aberta como elas tinham e que aquelas brigas eram normais, nada de mais. Mas tudo foi inútil, Louise se sentia casa vez mais mal, sua alegria e otimismo persistentes de outrora transformaram-se em pura angustia.  
Alguns meses se passaram e Louise teve uma pneumunia, não fez o tratamento que devia e seu quadro se agravou.
Em Julho de 1950 o brilho da estrela se apagou para sempre.

sexta-feira, dezembro 25

A Estrela [Parte 3]

Com sua pouca idade e seu novo comportamento, Louise começou a ter problemas com os pais. Vera sentia-se orgulhosa, mas acreditava que não era correto que uma moça daquela idade andasse por bares com um moço, sozinha, sentia-se chateada. O pai por mais paciente e compreensivo que fosse, abominava as novas atitudes da filha, sentia-se envergonhado perante os amigos que diziam "eu te avisei sobre essas artistas", e ele e Louise tinham interminaveis discussões quando ela regressava de suas noitadas.
Louise ficava sufocada dentro de sua própria casa, não podia receber os novos amigos, não podia beber em casa, ou fumar, e sempre recebia intermináveis sermões dos pais quando chegava em casa.
Apesar da boemia a que Louise se entregou, sua carreira continuou deslanchando, e outros papeis importantes chegaram.
Certo dia, enquanto ela e Marcelo tomavam suas bebidas de sempre sentados no bar de sempre, chegou uma conhecida de Marcelo que viera de Paris, Hilda Katerine era o seu nome.
Hilda era cerca de dois anos mais velha que Louise, mas sem dúvida era uma mulher a frente de seu tempo, usava calças e um batom vermelho cortante fosse noite ou dia.
Elas tornaram-se amigas, Louise admirava o caráter de Hilda, e logo adotou também as calças.
Foi um escândalo na família, a situação ficou insustentável. 
As noites de Louise eram sempre uma aventura, espetáculos, e o trio pelos bares da cidade. 
Em feveriero de 1941 Louise e seus dois inseparáveis amigos conheceram o Lança Perfume, era carnaval. Marcelo e Louise apenas se divertiram com ele, para Hilda o Lança Perfume tornou-se companheiro.
Os dois amigos ficavam preocupados com Hilda, mas ela sempre estava muito bem.
Em março de 1942 durante um dos coqueteis de fim de estréia de peça, Louise conheceu José Augusto com quem casou-se oito meses depois. 
Foi uma paixão arrebatadora para ambos, e apesar de José Augusto não gostar muito dos amigos de Louise, e deles também não se sentiram muito a vontade com o rapaz, tudo foi muito bem, e Hilda e Marcelo foram seus padrinhos. Para os pais de Louise um alívio. Para ela própria também, não havia outro jeito de sair de casa. 
Quatro meses depois Marcelo e Hilda casaram-se também, provavelmente descobriram com a ausência da companheira que essa de casamento poderia dar certo com eles. 
Mas o casamento de Louise não deu certo por muito tempo, em janeiro de 1944 ela decidiu se separar de José Augusto, não se sentia feliz, mais uma vez estava sufocada, ela era livre, jovem, bonita e rica, não precisava daquilo. Mais uma decepção para os pais, mas dessa vez a estrela foi brilhar em um canto que era só seu. 
Louise decorou sua casa cuidadosamente, organizou cada detalhe, deu uma festa de inauguração em seu novo apartamento. 
A partir dai Louise decidiu que conheceria o mundo sozinha quando não estivesse em turnê. Ela queria conhecer toda a Europa.
Como tudo havia sido desde o começo, querer para Louise era poder, e ela fez todas as viagens que queria, teve muitos amores, um em cada viagem, ou mais que um, mas foi em Florença que conheceu o maior deles, o amor de sua vida, Alonzo. 
Alonzo Bergamo era um diretor de teatro, se conheceram atravéz de contatos que Louize fizera durante suas viagens. Sem dúvida foi a maior paixão da vida de Louise, não se casaram como ele gostaria porque Louise passou a acreditar que os casamentos acabavam com o amor, mas viveram juntos em Florença e foram muito felizes enquanto foi possível. 
Sendo Alonzo diretor, Louise fez várias peças na itália. Ela brilhava como nunca em palcos Italianos.
Em 1949 Louise recebeu a triste notícia de que seus pais haviam falescido em um acidente de automóvel. Transtornada regressou sozinha para o Brasil, despediu-se de Alonzo com a promessa de que estaria de volta assim que pudesse, o que não foi possível. 
Louise não chegou no Brasil a tempo de velar o corpo de seus pais. Depois teve que tomar conta de todos os papeis e como filha única herdara tudo o que fora dos pais para si. É claro que ela não precisava daquilo, já era rica o suficiente, queria seus pais de volta, agora. Foi o único desejo de Louise que não pode se realizar. 
Enquanto cuidava dos trâmites legais com ajuda de Marcelo e Hilda, sentia remorso por ter causado tanto desgosto aos pais. 
Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos. 


[Continua]