Enquanto olhava a paisagem morta da grande cidade Tereza chorava, era domingo e estava vazia e sozinha em seu apartamento.
Não tinha nada a fazer, não tinha companhia, não tinha, tudo lhe faltava.
Só tinha uma coisa a se agarrar; a saudade.
Então era isso que Tereza fazia nos dias em que não tinha trabalho nenhum, agarrava-se com a saudade de um amor que a deixou, na saudade da família que sutilmente se afastou e a saudade dos amigos, que com tanta ausência de esqueceram dela.
Tinha se descuidado, sabia disso, buscou tão intensamente o poder e o controle que sempre quis, que esqueceu-se que nada daquilo faria sentido se não tivesse com quem compartilhar.
Ela conseguiu, conseguiu tudo o que queria, mas agora estava morrendo junto com a paisagem da grande cidade, morrendo como as flores que ganhou no último dia dos namorados que tinha alguém com quem compartilhar, as flores morreram por falta de água, o dia dos namorados a muito tempo secou.
Chegou exatamente onde sonhou chegar, mas esquecia alguns aniversários ás vezes e mandava a secretária dizer que estava em reunião. Tantas e tantas reuniões em mesas compridas e retângulares cheias de pessoas sérias que nada lembravam as reuniões de Natal na casa dos pais, cheias de alegria e aconchego, mas agora eram só os rostos sérios e os Natais, bem, as companhias aéreas esgotam muito cedo as passagens nesta época.
E para ficar onde estava, sempre levava trabalho para casa, não saia mais com aqueles que a conheciam tão bem e gostavam dela apesar de tudo, nunca mais as luzes da cidade e os bares de final de semana, trabalho... Trabalho.
Então no domingo Tereza acordou, encostou-se na janela do apartamento e chorou por algum tempo.
Tomou um banho, colocou uma roupa qualquer e decidiu ir respirar um pouco de ar, ainda que sujo, da cidade. Caminhou por algumas ruas distraidamente reparando no movimento das pessoas e esqueceu, como era de costume esquecer, de reparar no movimento dos carros, ao atravessar a rua, naquele domingo vazio, a esquecida tereza não fez muita questão de agarrar-se a vida como agarrou-se naquela manhã à saudade. Entregou-se.
sexta-feira, janeiro 22
Por Bárbara Grou. Contado às 22:22 7 Espantos
Sobre: Drama, Recortes de Vida
quarta-feira, janeiro 20
Ela deixou os chinelos na areia,
Por Bárbara Grou. Contado às 21:52 6 Espantos
Sobre: Recortes de Vida, Vida
domingo, janeiro 17
Fim
- Oi.
- Oi amor, não esperava por você agora, entra.
Como foi o dia?
- Foi bom. Na verdade não muito, tenho pensado um pouco em umas coisas.
- Quer dividir?
- Na verdade eu preciso.
- Então me diga.
- Sabe, é tão difícil, dói tanto ter que dizer assim, eu me sinto mal, de verdade.
- O que aconteceu?
- Eu te trai.
- (...)
- Por favor, não chora assim.
- O que você acha que eu deveria fazer Fernando?
- Me bate, briga comigo, só não chora assim na minha frente, eu não mereço.
- Quando?
- Começou a um mês mais ou menos.
- Começou?
- É por isso que eu não mereço que você chore, eu não te trai Marília, eu estou te traindo, eu pensei muito, e eu acho que me apaixonei por ela, me pegou de surpresa e eu não sei como explicar.
- Porque não me disse antes, porque me fez de boba este tempo todo?
- Eu estava confuso.
- Haaa você estava confuso? Eu achava que você não era tão egoísta assim!
- Para de chorar.
- Me deixa!
- Desculpe.
- Então é isso? Tudo isso de uma vez e você me pede desculpas?
- Eu vou sair da sua vida, não se preocupe.
- Você não sabe o quanto isso dói, você não tem idéia do quanto eu te amo, da forma como eu apostei cada pensamento que eu tinha em você!
- Eu também te amo.
- Cala a boca! Isso é ridículo, não me ama! VOCÊ NÃO ME AMA!
- Eu sei que não podia.
- Me abraça.
- Me perdoa minha flor.
- E se eu disser que sim?
- Eu não sei.
- Você a ama?
- Não sei.
- Porque eu não consigo te mandar embora? Porque dói tanto te dizer o que eu deveria dizer?
- Eu vou embora.
- Quem é ela?
- Trabalha comigo.
- Como você pode?
- Eu não sei explicar, eu me sinto mal por você, mas não sei o que fazer.
- Tchau.
- Quer mesmo que eu vá?
- Não, mas você não tem o direito de me perguntar.
- Eu sei, me desculpe, não vou mais te procurar.
- Sai daqui e me deixe chorar sozinha, vai embora e eu quero que você se sinta muito mal por isso, quero que você saiba que está me fazendo sofrer. Logo eu que fiz tudo por você.
- Desculpe; tchau.
Por Bárbara Grou. Contado às 20:54 12 Espantos
Sobre: Despedidas, Fim
sexta-feira, janeiro 15
Fofoca encantada
Por Bárbara Grou. Contado às 21:56 5 Espantos
segunda-feira, janeiro 11
Uma chance
Por Bárbara Grou. Contado às 21:15 5 Espantos
sábado, janeiro 9
Menina senhora
Por Bárbara Grou. Contado às 22:44 4 Espantos
Sobre: Encantado
sábado, dezembro 26
A Estrela [Parte 4]
Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos.
Sentia-se muito mal, seus pais eram tudo o que ela tinha de concreto na vida, e ela os tinha perdido.
Depois de tudo acertado, ela não sabia o que fazer, se voltava para a Europa ou se ficava no Brasil, voltava para sua antiga casa e retomava sua carreira aqui.
Decidiu ficar, mas não retomou a carreira.
A estrela estava triste de mais para poder brilhar, ela simplesmente não conseguia.
Louise entregou-se ao álcool, passava dias e dias bêbada. Hilda e Marcelo ficavam preocupados, ofereciam ajuda, mas Louise não queria ajuda, estava mal e estava feliz com isso, achava-se merecedora de seu sofrimento, além do mais o álcool era a única coisa que podia fazer com que os pensamentos corrosivos das brigas com os pais saissem um pouco de sua cabeça.
Hilda tantava lhe convencer de que nada daquilo tinha importância, e que ela fez o que fez porque precisava alcançar o que sempre quisera para a vida e que seus pais é que não tinham a mente aberta como elas tinham e que aquelas brigas eram normais, nada de mais. Mas tudo foi inútil, Louise se sentia casa vez mais mal, sua alegria e otimismo persistentes de outrora transformaram-se em pura angustia.
Alguns meses se passaram e Louise teve uma pneumunia, não fez o tratamento que devia e seu quadro se agravou.
Em Julho de 1950 o brilho da estrela se apagou para sempre.
Por Bárbara Grou. Contado às 22:21 3 Espantos
Sobre: Vida
sexta-feira, dezembro 25
A Estrela [Parte 3]
Com sua pouca idade e seu novo comportamento, Louise começou a ter problemas com os pais. Vera sentia-se orgulhosa, mas acreditava que não era correto que uma moça daquela idade andasse por bares com um moço, sozinha, sentia-se chateada. O pai por mais paciente e compreensivo que fosse, abominava as novas atitudes da filha, sentia-se envergonhado perante os amigos que diziam "eu te avisei sobre essas artistas", e ele e Louise tinham interminaveis discussões quando ela regressava de suas noitadas.
Louise ficava sufocada dentro de sua própria casa, não podia receber os novos amigos, não podia beber em casa, ou fumar, e sempre recebia intermináveis sermões dos pais quando chegava em casa.
Apesar da boemia a que Louise se entregou, sua carreira continuou deslanchando, e outros papeis importantes chegaram.
Certo dia, enquanto ela e Marcelo tomavam suas bebidas de sempre sentados no bar de sempre, chegou uma conhecida de Marcelo que viera de Paris, Hilda Katerine era o seu nome.
Hilda era cerca de dois anos mais velha que Louise, mas sem dúvida era uma mulher a frente de seu tempo, usava calças e um batom vermelho cortante fosse noite ou dia.
Elas tornaram-se amigas, Louise admirava o caráter de Hilda, e logo adotou também as calças.
Foi um escândalo na família, a situação ficou insustentável.
As noites de Louise eram sempre uma aventura, espetáculos, e o trio pelos bares da cidade.
Em feveriero de 1941 Louise e seus dois inseparáveis amigos conheceram o Lança Perfume, era carnaval. Marcelo e Louise apenas se divertiram com ele, para Hilda o Lança Perfume tornou-se companheiro.
Os dois amigos ficavam preocupados com Hilda, mas ela sempre estava muito bem.
Em março de 1942 durante um dos coqueteis de fim de estréia de peça, Louise conheceu José Augusto com quem casou-se oito meses depois.
Foi uma paixão arrebatadora para ambos, e apesar de José Augusto não gostar muito dos amigos de Louise, e deles também não se sentiram muito a vontade com o rapaz, tudo foi muito bem, e Hilda e Marcelo foram seus padrinhos. Para os pais de Louise um alívio. Para ela própria também, não havia outro jeito de sair de casa.
Quatro meses depois Marcelo e Hilda casaram-se também, provavelmente descobriram com a ausência da companheira que essa de casamento poderia dar certo com eles.
Mas o casamento de Louise não deu certo por muito tempo, em janeiro de 1944 ela decidiu se separar de José Augusto, não se sentia feliz, mais uma vez estava sufocada, ela era livre, jovem, bonita e rica, não precisava daquilo. Mais uma decepção para os pais, mas dessa vez a estrela foi brilhar em um canto que era só seu.
Louise decorou sua casa cuidadosamente, organizou cada detalhe, deu uma festa de inauguração em seu novo apartamento.
A partir dai Louise decidiu que conheceria o mundo sozinha quando não estivesse em turnê. Ela queria conhecer toda a Europa.
Como tudo havia sido desde o começo, querer para Louise era poder, e ela fez todas as viagens que queria, teve muitos amores, um em cada viagem, ou mais que um, mas foi em Florença que conheceu o maior deles, o amor de sua vida, Alonzo.
Alonzo Bergamo era um diretor de teatro, se conheceram atravéz de contatos que Louize fizera durante suas viagens. Sem dúvida foi a maior paixão da vida de Louise, não se casaram como ele gostaria porque Louise passou a acreditar que os casamentos acabavam com o amor, mas viveram juntos em Florença e foram muito felizes enquanto foi possível.
Sendo Alonzo diretor, Louise fez várias peças na itália. Ela brilhava como nunca em palcos Italianos.
Em 1949 Louise recebeu a triste notícia de que seus pais haviam falescido em um acidente de automóvel. Transtornada regressou sozinha para o Brasil, despediu-se de Alonzo com a promessa de que estaria de volta assim que pudesse, o que não foi possível.
Louise não chegou no Brasil a tempo de velar o corpo de seus pais. Depois teve que tomar conta de todos os papeis e como filha única herdara tudo o que fora dos pais para si. É claro que ela não precisava daquilo, já era rica o suficiente, queria seus pais de volta, agora. Foi o único desejo de Louise que não pode se realizar.
Enquanto cuidava dos trâmites legais com ajuda de Marcelo e Hilda, sentia remorso por ter causado tanto desgosto aos pais.
Com seu regresso como atriz consagrada na Itália, os convites não pararam de chegar, mas ela recusou todos.
[Continua]
Por Bárbara Grou. Contado às 21:31 0 Espantos
Sobre: Vida




